segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rabin no Furo MTV (16/11/09): Uma droga!


Rabin avisa pelo twitter que substituiria Dani Calabreza hoje no Furo MTV.

Totalmente desnecessário avisar! Pra que isso? Pra resumir: estava uma droga!

Desculpem, mas sou obrigada a dizer, vou ter de jogar umas coisinhas no ventilador! E o farei através de perguntas que serão respondidas a seguir, portanto leiam até o fim.

Como ele se atreve a se meter a fazer tal coisa?

Pra começar estava de terno e gravata. Depois ficava errando a câmera o tempo todo.

Errou várias frases, tais como: ao invés de dizer "militar" disse "limitar"; ao invés de dizer "o que você acha disso?" ele disse "o que você acha isso?" Que cara totalmente sem noção! E teve a pachorra de cantar ainda por cima!?

E fazia aquela pose como quem pensa que só por ser lindo, charmoso e fazer biquinho pra falar vai convencer o povo a aceitar o que ele fez!

Eu vou te contar, viu? É cada uma que tiete tem de aguentar! Vou me explicar mais claramente...

Rabin no Furo foi uma droga... Isto é, viciante!

Ele se atreveu a aceitar esse convite porque ele sabe que pode, sabe que dá conta. É um baita profissional, responsável.

De terno e gravata como pede o programa com cabelinho de surfista, ficou mais do que charmoso, mas isso não vem ao caso, já que ninguém vai botar fé no que eu digo se ficar chamando ele de lindo...

Errou a câmera, errou frases, errou palavras... Que sem noção! Sim, ele é sem noção em cada milímetro de sua inventada estupidez! Rabin é um observador nato, por isso um artista... E por isso soltou um Maurício Manieri do avesso. Alma de borracha?

Sim, ele faz bico pra falar. E sorri de propósito! Aquele sorriso do qual falei quando escrevi do mesmo no show ao vivo...

Estou indignada! Indignada por não poder ver o Rabin mais vezes atuando. Sua profundidade está nessa simplicidade, clara e objetiva, sem muito esmero, muito bem calculada.

Sim, jogo mesmo no ventilador! Jogo pétalas de rosa para meu herói! Chato, charmoso, de linda fuça... Tô mesmo perdida, não tenho mais crédito na praça...

A droga do Rabin...

Ana Cata-Palhaço

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sem noção em Florianópolis


Essa chatice insistente

Irrita, afaga e assusta.

Mas chega ser comovente

Ver Rabin e sua linda fuça!



Já começa irritando: se auto-apresentando antes de entrar no palco. E diz as recomendações em duas línguas, que egocêntrico! Faz voz grave e de repente ele entra...


Jeans pálidos, camisa florida em azul e branco, os cabelos dourados e nesse dia o rosto avermelhado de sol. Mesmo assim seus olhos incisivos e claros brilham mais do que os dos outros mortais. A voz suaviza, ele sorri para a platéia e derretemos! Pronto! Estamos nas suas garras.


Fingidor anti-poético

Tira piada da vida alheia

Parece até eclético,

Mas é castelo de areia.



E a partir dali somos reféns do seu charme, do seu auto proclamado mau humor e de sua surpreendente habilidade em fazer do trivial a coisa mais engraçada do mundo. E nem poupa a si mesmo. Porém, logo percebemos que é só mais uma estratégia para que ele possa invadir outros e quaisquer contextos. Morde, depois assopra, pede desculpas pela piada grosseira, pega no pé da Preta Gil e mais uma vez faz o sorrisinho irresistível.


Faz-se e refaz em cena

Pára, volta e se retrai,

Avança e te dói, sem pena.


A voz suave vira feroz sem aviso e fala de atos que a contradizem. Repete a teoria de Bérgson, insistindo no erro premeditado (seria cuidadosamente ou por instinto?). Quando ele fala coisas que doem, parece de propósito, mas rimos do mesmo jeito. O escorpiano não tem dó de ninguém... Nem dele mesmo.


Rabin, mestre jocoso,

Fábio, plantador de favas,

Já sou fã desse palhaço charmoso!



Mas esse quase não-mais-menino, já nasceu mestre, inclusive na humildade. Não se dá tanta importância e como todo mestre é paradoxal, pois é muito sério e responsável no que se propõe e nos apresenta. E seu charme e profissionalismo irresistíveis ainda têm o poder greco-divino de fazer rir?


Claro! Mesmo parecendo que é “às favas” ainda assim é modéstia, mesmo que seja “modéstia às favas”.


Ana Cata-Palhaço



sábado, 20 de dezembro de 2008

PALMAS PARA JERRY LEWIS! ENQUANTO É TEMPO...





Jerry Lewis receberá em 2009 um Oscar humanitário chamado Jean Hersholt por seur serviços prestados desde a fundação da MDA (Muscular Distrophy Association) que ajuda as pessoas que têm distrofia muscular. Desde então Jerry tem feito o famoso
Telethon para arrecadar fundos para ajudar em pesquisas e portadores da doença. Telethon esse sugerido pela Hebe Camargo ao Sílvio Santos para que fizesse algo parecido no Brasil...

Contudo, para nós fãs, esse prêmio apesar de muito merecido ainda não é o que gostaríamos de ver. Queríamos vê-lo recebendo um prêmio em homenagem ao tudo o que ele fez no e para o cinema - como já citei aqui a sua criação do "video assist camera" o qual diretores não vivem mais sem. Ele já recebeu inúmeros outros prêmios importantes e de grande reconhecimento. E mesmo sabendo que o Oscar nem é lá essas coisas, mas é muito conhecido mundialmente e muito mais pessoas e nós fãs iríamos adorar vê-lo coroado com mais essa glória.

Lembro-me quando eu fazia coleção de recortes sobre ele, bem antes do google e assisita a simplesmente todos seus filmes na "sessão da tarde", tantas vezes que já decorava as falas. E imitava com as amigas de colégio suas gags, caretas e falas!
E qual não foi minha surpresa saber de sua dedicação à causa da distrofia muscular, o que vim saber só nos anos 90!


A despeito de suas eternas controvérsias, atropelos e por ser um tanto desbocado em algumas declarações, Jerry é emotivo, solidário e reconhece outros talentos. Sua vida pessoal sempre rendeu muitos dólares às revistas e jornais de fofoca. Aliás, a última é uma tal de Suzan Lewis que diz ser filha dele com uma bailarina, enquanto era casado com a primeira esposa. A moça escreveu um livro e tenta fazer shows de comédia por aí... Sei lá, vai saber...

Nossa! Já ouvi tanta coisa sobre ele: que ele era o maior garanhão e passava o rodo mesmo no auge de sua fama ainda em dupla com Dean Martin (aliás, seu eterno amigo pessoal e companheiro de baladas apimentadas!) e casado com Patti. Ele era sim até um gatinho e disse Sandra Dee que era muito charmoso e conquistador. Também ouvi que ele era meio maluco com a família, que teria instalado na sua mansão, em que morava com Patti e os seis filhos, câmeras para vigiar o que todos faziam, numa época em que câmeras de vigilância nem eram comuns. Que era meio grosseiro com os companheiros quando dirigia, produzia e atuava em seus próprios filmes e que depois arrependido trazia presentes pra todo mundo (se não me engano roupões de banho com suas inicias neles estavam entre os tais presentes).

Por falar nisso, a parceria com Dean Martin era mais do que especial. O próprio Jerry diz que eles tinham uma química incrível, um mistério que os envolvia como dupla e que estava lá em cada olhar, em cada cena combinada ou não. Eram realmente grandes parceiros.

Alguns acham que essa iniciativa da MDA é publicidade, outros acham que é autruísmo. Eu mesma não tenho como saber da verdade, nem quero julgar ninguém. Ele faz isso há muitos anos e não precisaria disso para se promover, eu acho. Mas que tal ler o que ele mesmo diz a respeito de ajudar os outros e você tira suas próprias conclusões.

Jerry:
"I shall pass through this world but once. Any good, therefore, that I can do or any kindness that I can show to any human being, let me do it now. Let me not defer nor neglect it, for I shall not pass this way again!"
(Eu devo passar por este mundo somente uma vez. Porém, todo o bem que eu puder fazer ou qualquer bondade que eu possa demonstrar a qualquer ser humano, quero fazê-lo agora. Que eu não negue ou negligencie isso, pois eu não vou cruzar o mesmo caminho de novo! - minha tradução)


Jerry é sim, sempre foi e será o nosso Rei da Comédia! Inspirando as gerações seguintes não somente em fazer rir, mas em técnicas cinematográficas fantásticas, como o esmero nas cores, no figurino, na impecabilidade do cenário e de um inglês bonito, pelo menos nos filmes. Que pelo menos nós fãs e alguns conscientes batam palmas para Jerry Lewis agora, pois a gente não sabe quando vai encontrar outro parecido nesse planeta. Na verdade, nunca mais!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

MADONNA LEVADA (NEM TANTO) A SÉRIO


Este post é uma exceção neste blog, já que não consegui publicá-lo no meu multiply.



Chegou minha vez de falar de Madonna


Vou tentar não ser muito prolixa, nem pretendo ser muito profunda. Os questionamentos serão bem simples. Não quero falar dos trilhões de dólares que Madonna ganha e/ou tem, nem dos possíveis descontos do IR por fazer isso ou aquilo. Isso é problema dela.

Aliás, ela não me parece se preocupar muito com os números, mesmo sendo ambiciosa, afinal é isso que o “novo capitalismo” está – leia-se “O Segredo”, Deepak Chopra entre outros – tentando nos imputar agora, não é mesmo? Que os verdadeiros vencedores e prósperos não pensam no dinheiro em si, mas no sucesso dos seus sonhos. E se essa teoria dá mesmo certo, Madonna pode ser um exemplo dela... Já que estamos num neo-caos e numa época em que os pensadores do mundo teimam em nos alertar que tudo é construído inclusive nosso desejo sexual vou assumir talvez aqui o meu lado “construído” e comentar esse exemplo de mulher poderosa.

Espere aí, você ouviu bem sim! “Nosso” desejo sexual também é construído por esse mundo cruel e capitalista selvagem! Se conseguir achar leia (em inglês) o artigo do professor Garry Leonard da Universidade de Toronto entitulado “Power, Pornography, and the Problem of Pleasure: The Semerotics of Desire and Commodity Culture in Joyce” em que ele usa o conto “The Dead” de James Joyce para fazer um apanhado da nossa história ocidental a respeito da “problemática do prazer” e nosso desejo construído em nome do poder. Vi também Flávio Gikovate na TV cultura comentando sobre isso, dando o exemplo de que uns tempos atrás as mulheres iam ao consultório reclamando que odiavam fazer sexo anal, porque era incômodo, porque doía, porque era sujo. Agora depois da enxurrada de filmes pornôs mostrando o ato de modo tão natural e por ter virado fashion, parece que nenhuma delas sente dor mais! Resumindo: as pessoas não se interessam em descobrir a outra quando vão pra cama, em deixar o sexo rolar; elas querem colocar em prática o que viram nos filmes pornôs (principalmente os homens por uma vontade “construída” em perpetuar um tal poder perdido). Ops! Desculpa! Isso aqui está ficando muito profundo e eu prometi que não ia fazer isso. Foi só uma digressão e digressão é coisa que abre ao profundo... Não posso! Tenho de voltar à simplicidade do mundo cão, pop e pulp fiction, ao coletivo!

Ver Madonna atuando me motiva, de verdade. Desde quando era adolescente e ela começava na carreira. O visual dela era tudo para nós garotas reprimidas, principalmente as iguais a ela, eu, educadas em colégio de freiras (ok, calma, não vou entrar aqui na discussão da repressão sexual católica nas mentes de inúmeras gerações e nem da imagem sensual de Cristo pregado na cruz...). A audácia em fazer o que quer e exercer o direito em ser contraditória, mas corajosa, realmente me faz admirá-la. A música de Madonna me faz levantar e dançar, o que ela diz em suas letras muitas vezes me faz dizer “é isso! É isso!” em segredo, só pra mim. E vê-la em seus modelitos, corpo sarado e recauchutado me faz entusiasta por pensar que eu também posso fazer o mesmo. Até me questionei, esquecendo o passado, (só um pouquinho, bem superficialmente) se essa motivação que a Madonna me causa não seria porque eu mesma estou já sentindo o peso social da minha idade (e da gravidade) e ao vê-la tão bem aos 50 anos, envelhecendo sem nenhum pudor e muito botox na nossa frente não seria uma grande desculpa. Mas vi que não porque cada vez que olho para trás e vejo toda a trajetória dela vejo a minha também e percebo que ela sempre me motivou de um modo ou de outro, mesmo que sutilmente. E vejo que ela fez isso com muitas mulheres do meu tempo e com as minhas amigas bibas, é claro. Uhu!

Ela nunca foi tão bonita, mas aprendeu a se valorizar. Ela nunca foi uma grande cantora, mas aprendeu a cantar; desafina ao vivo um monte, mas tem muito cantor de rock e até de ópera que dá uns escorregões vai! Os shows, os vídeos clips são impecáveis. Como diria um grande amigo meu “ela juntou um papel laminado, umas cartolinas, botou no palco e acreditou nela! E vamô lá!”.

E ela vem crescendo em termos de som diferente e letras fantásticas! Ela escreve coisas, ok pops, mas muito legais e que dizem muito ao mundo feminino. Adoro principalmente quando ela fala da dor de ser uma mulher poderosa e contraditoriamente machista ao aceitar um homem que a maltrata ou que é simplesmente um bundão. Aliás, uma coisa que NÓS mulheres poderosas (psicólogos podem explicar isso melhor do que eu) temos a mania de fazer: aceitar homens porcarias, talvez para justificar o mundo machista em que vivemos e nos colocando para baixo.
Veja:
Take a bow mostra aquele nosso momento de descoberta do amor falso ou acabado

You deserve an award for the role that you play
(…)
You took my love for granted, why
I’ve always been in love with you

E quando a gente dá aquele famoso pé na bunda do bofe, ele volta dizendo “
Sorry” (de qualquer nacionalidade, de qualquer canto do mundo, parece sempre a mesma merda. Nossa! Como isso é verdade!), Madonna nos representa e diz:

You’re not half the man you think you are
(…)
You stayed because I made it so conviniente

É isso mesmo, amiga! Nós é que permitimos! E depois a gente reclama. Já que temos que fazer todo o trabalho... Cala boca e tira as calças! Ahahahahah! (risada de bruxa!). Ai minha Lilith!
E depois ainda dá uma chance para os carinhas usarem seus neurônios e pergunta(mos) What it feels like for a girl:

Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
cause its ok to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
cause you think that being a girl is degrading
But secretly you’d love to know what it’s like
Wouldn’t you
What it feels like for a girl

Madonna se expõe, ela tenta fazer algo diferente, ela experimenta, ela não olha para trás, ela erra, ela se contradiz e acho que é por isso que me sinto tão identificada com ela. E se for por ela, Madonna, entre outras mulheres expoentes no mundo capitalista que eu me inspirei e construí um modelo de mulher que é dona do seu nariz, ok, aqui está meu agradecimento e sim reverência.

A gente paga um preço alto por ser independente, por viver a nossa sexualidade como queremos mesmo construída por
Erotica. De nos expor como e quando queremos, sendo chamadas de loucas e metendo medo nos homens, nos apaixonando loucamente por eles, sendo traída por eles (novamente) e desabafando dizendo:

She's not me
She doesn't have my name
She'll never have what I have
It won't be the same
It won't be the same

She is licking her lips
And she's batting her eyes
She's not me
She's got legs up to there
And such beautiful hair
She's not me
Oh, devoted for life
Make a beautiful wife
She's not me
If you spend some more time
I guarantee you will find
She's not me

E se por tudo isso (sexualidade, paixão, ambição e sei lá mais o que) você, mundo machista, me condena... Eu não vou pedir desculpas, tá?

Did I say something wrong?
Oops, I didn’t know I couldn’t talk about sex
[I must’ve been crazy]
Did I stay too long?
Oops, I didn’t know I couldn’t speak my mind
[what was I thinking]
(…)
And I’m not sorry, it’s human nature

Sinto-me menos uma mulher-palmito por tudo isso que aprendi com a rainha do pop. E por isso eu coloquei essa foto dela num trono de perna aberta mesmo! Porque é lá a que pertencemos: eu e Madonna!

P.S.: Fui prolixa! I’m not sorry!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

DIA DO PALHAÇO


Ilustração de Elifas Andreato - um dos maiores cartunistas do Brasil


Hoje é Dia do Palhaço e vou fazer um comentário muito rápido aqui, para refletir.
Até porque a figura da qual origina-se o palhaço é tão antiga que mereceria uma pequena dissertação.

Para se ter uma idéia Carl Gustava Jung menciona em seu livro "Os arquétipos e o inconsciente coletivo" que o arquétipo trickster ou aquele que muda de figura remonta à antiguidade, passando pela era grega e média como um personagem nas comunidades que saía às ruas para pregar peças nos moradores em festividades que lembravam o carnaval. Esses personagens vinham semi nus ou vestidos com roupas chamativas e na maioria das vezes com seu falo aparecendo ou um postiço amarrado no quadril. As brincadeiras eram grosseiras e muitas vezes violentas.

Ao que parece, comenta Jung, o palhaço seria uma "evolução" dessa figura. O personagem antigo (ainda mantido em algumas culturas isoladas) teria como característica a total inconsciência de si mesmo e da vida, sendo visto como um ser primitivo, quase animal. Em algumas manifestações folclóricas, como o maracatu em Pernambuco há um personagem quase assim, muito bem explorado pelo artista Chico Science. O palhaço teria herdado da inconsciência do trickster sua ingenuidade e o modo desbocado de dizer o que pensa.

Já comentei no primeiro texto publicado aqui da origem da comédia. O circo como o conhecemos hoje teria se formado e sistematizado como tal entre o século 17 e 18. O ser primitivo popular saiu das ruas, entrou nos palácios como bobo da corte e ganhou o público mais amplo como estrela dos circos!

A evolução foi tanta que o palhaço até cutucou, com seu lado sombrio (tão antigo quanto seu lado engraçado), os pesadelos de muitas crianças e adultos, fazendo-as terem medo dele ou inspirando autores como Stephen King a escrever sobre It, o palhaço que literalmente comia criancinhas! Também usamos a palavra palhaço para indicar a pessoa que é feita de tola (em outras línguas também!), como o povo brasileiro, por exemplo.

Houve um tempo em que os palhaços estavam fora de moda - mas nunca esquecidos. Graças a Deus, as pessoas e principalmente as novas gerações redescobriram e ressucitaram essa figura tão amada e odiada por todos nós e hoje vemos escolas de palhaços espalhadas pelo mundo, trazendo a poesia e o famigerado desconserto que ele nos causa, tão importante para a nossa catarse diária!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Raiva e criatividade!



Um dia Michael Palin falou sobre o início do fim dos Pythons. Entrevistadores e fãs perguntavam desolados por que o grupo tinha terminado. Todos esperavam uma resposta fabulosa, filosófica ou de fofoca... Mas ele foi certeiro e bem pythiano: disse que terminaram porque a raiva tinha ido embora... Simples assim! Um belo dia ele acordou de manhã e ficou lá sentado na cama, olhando pro nada, feito um filho de égua, se sentindo totalmente vazio. E descobriu que a raiva havia acabado. E assim parece ter sido com os outros membros do grupo.

Palin então comentou que sem a raiva das coisas não tem como se fazer humor. Por isso o humor é considerado pelos artistas algo mais complexo de se fazer do que o drama, ou deve ser. Fazer os outros rirem envolve um monte de mini processos, eu acho. Você tem de ser um revoltado, um raivoso, um crítico zangado como tudo - com a idiotice, com a política, com a breguice... E depois transformar essa raiva em algo criativo e inventar uma carão que combine, além de elaborar um bom discurso - grosseiro ou sofisticado, não importa, mas bem pensado - pra dizer tudo o que pensa.

Já ouviu dizer que quase todos os humoristas são mau humorados, grosseiros, ou no mínimo depressivos? Jerry Lewis só era feliz quando filmava, mas com a família era um porre. Woody Allen é bem conhecido por suas neuroses e esquisitices. Jô Soares abandonou toda sua raiva sócio-política da época da ditadura e pré-abertura, pra viver integralmente seu famoso mau humor entrevistando os outros. E o Jim Carrey então? Viche, ninguém suporta o cara, ele ainda tem muita raiva dentro dele de tudo e de todos e não consegue parar de fazer críticas ferrenhas ao mundo!

Os Pythons, se você olhar para obra deles, apresentava muita raiva. John Cleese parecia ser o arauto do mau humor, mas os outros também eram zangados, se você reparar bem, ou pelo menos provocavam raiva na gente.

Parece que o mau humor é mais criativo mesmo que o bom humor, quando se canaliza bem essa raiva toda. Veja os comediantes que perderam a raiva e se domesticaram em favor de estabilidade financeira ou fama. O Faustão (que nem é um comediante, mas fazia rir) e seu antigo Perdidos na Noite era um rebelde que babava de ódio, suado num galpão da Rede Bandeirantes. O próprio Renato Aragão tinha umas sombrancelhas grossas e cara de marginal nos áureos tempos dos Trapalhões; hoje você olha pra ele e vê um tiozinho, um funcionário público com cara de coitado que parece ter medo de falar o que pensa. Essa domesticação talvez aconteça por uma via de mão dupla: a mídia que emprega o humorista o força a se moldar e ele aceita.

Em compensação veja o que aconteceu com aqueles que não quiseram se moldar como Chico Anysio e Tom Cavalcante. O Chico está fora das telas porque ele não aceita fazer um humor "global", e foi por isso que o Tom foi mandado embora de lá. Aliás, eu gosto muito do Tom Cavalcanti porque vejo que no momento ele é o único comediante de verdade que ainda consegue fazer sketches com personagens - sem contar a Praça é Nossa. E ele ainda achou um jeito de reinventar tudo e fazer concurso de piadas, mostrando talentos desconhecidos. Tanto foi sucesso que o programa do Faustão o copiou...

Em proporção bem menor, quando comparo com os artistas, me sinto muito mais criativa, ligeira e forte, quando estou com raiva. Acho que entendo perfeitamente o que o Palin disse. Me assusto quando estou apática...

E para mim o melhor mau humor da atualidade e que me faz rir muito é o do Bola, do Pânico! Adoro!



terça-feira, 21 de outubro de 2008

Peter Sellers: a incógnita super talentosa!

Quem foi Peter Sellers? Poderíamos começar com a tradicional mini biografia e filmografia encontrada em qualquer database por aí... Mas prefiro fazer do meu jeito, ok? Vamos lá...

Sellers foi um dos atores mais completos de todos os tempos, tendo passado por vários veículos como ator e ficando conhecido depois de atuar no cinema. Seus pais eram atores de vaudeville, a mãe atriz - uma super influência na vida e na alma de Sellers - e seu pai tocava piano junto com ela. Dizem que faziam uma dupla no mínimo estranha, já que ela era bem mandona e o pai meio bonachão, ela judia, ele protestante... Bem, ele foi criado praticamente em cima do palco, fez muito teatro antes de começar a fazer um programa de rádio, em que trabalhou com um grande pai da comédia inglesa, o Spike Milligan (que influenciou os Pythons e Rowan Atkinson - O Mr. Bean). Tudo isso bem novinho.

Quando foi para o cinema arrasou do começo ao fim, mesmo em filmes um tanto obscuros. Eu devo ter assistido a quase todos - pelos menos os que foram lançados no Brasil -, porém os destaques foram o Dr. Strangelove na comédia do Stanley Kubrick, "Doutor Fantástico" (aliás, Kubrick o adorava! Na verdade, Sellers fez vários outros personagens nesse mesmo filme) e claro o amado, atrapalhado, orgulhoso e inesquecível detetive francês Inspector Clouseau, que ainda influencia muitos atores até hoje.

Uma das maiores habilidades de Sellers (além da interpretação marcante, da uma voz linda e colocada, de uma dicção que beirava a perfeição) era a de imitar com perfeição qualquer sotaque que quisesse. Um deles é o engraçadíssimo Hrundi V. Bakshi, o indiano de "Um Convidado Bem Trapalhão". Por isso acho que curtimos mais quando vemos os filmes originais e principalmente se sabemos bem inglês, pois ele tinha umas tiradas intraduzíveis.

Mas na minha opinião ele tinha algo que poucos atores têm: o limite entre o engraçado e o trágico, o patético. Apesar de ser considerado um comediante, na verdade ele não se entitulava assim. Se dizia um ator e pronto, com uma característica "mediúnica" e dizia ter uma "alma de borracha", pois os personagens entravam dele, o possuíam. Tanto é que ele dizia ser médium mesmo e após a morte da mãe, ele contava que ela aparecia em seus camarins para dar palpite na sua atuação como sempre fez (?!). Shirley McLaine diz tê-lo visto logo após sua morte, quando terminaram de gravar o filme "Muito Além do Jardim"...

A sua última atuação foi neste filme, em que ele eleva seu talento ao mais alto nível que um ator pode levar, considerar o patético. Chancy Gardener era um homem robotizado, inocente, mas revelava-se profundo de alguma forma ridicularizante e triste. O filme é baseado no livro "O videota" de Jerzy Kosinski. Ganhou o Globo de Ouro e foi indicado ao Oscar por este personagem.

Adorei a homenagem feita a ele no filme "A Vida e a Morte de Peter Sellers" com o ator Geoffrey Rush. Rush está tão parecido com Sellers que chega a dar medo! Ali resolveram mostrar o lado sombrio de Sellers: suas paranóias, seus mimos, seu envolvimento com drogas, o jeito estranho de lidar com os filhos, seus relacionamentos doentios... Não me interesso muito nisso - vida íntima de um ídolo meu - , mas o filme é muito bem feito e só quem é fã de Sellers o entenderá mais profundamente.

Ele foi uma incógnita como pessoa, talvez por não saber exatamente o que era... Mas como ator ele foi Fantástico. E eu ainda cultivo um "strangelove" por ele... Vai ser eterno...