
Este post é uma exceção neste blog, já que não consegui publicá-lo no meu multiply.
Chegou minha vez de falar de Madonna
Vou tentar não ser muito prolixa, nem pretendo ser muito profunda. Os questionamentos serão bem simples. Não quero falar dos trilhões de dólares que Madonna ganha e/ou tem, nem dos possíveis descontos do IR por fazer isso ou aquilo. Isso é problema dela.
Aliás, ela não me parece se preocupar muito com os números, mesmo sendo ambiciosa, afinal é isso que o “novo capitalismo” está – leia-se “O Segredo”, Deepak Chopra entre outros – tentando nos imputar agora, não é mesmo? Que os verdadeiros vencedores e prósperos não pensam no dinheiro em si, mas no sucesso dos seus sonhos. E se essa teoria dá mesmo certo, Madonna pode ser um exemplo dela... Já que estamos num neo-caos e numa época em que os pensadores do mundo teimam em nos alertar que tudo é construído inclusive nosso desejo sexual vou assumir talvez aqui o meu lado “construído” e comentar esse exemplo de mulher poderosa.
Espere aí, você ouviu bem sim! “Nosso” desejo sexual também é construído por esse mundo cruel e capitalista selvagem! Se conseguir achar leia (em inglês) o artigo do professor Garry Leonard da Universidade de Toronto entitulado “Power, Pornography, and the Problem of Pleasure: The Semerotics of Desire and Commodity Culture in Joyce” em que ele usa o conto “The Dead” de James Joyce para fazer um apanhado da nossa história ocidental a respeito da “problemática do prazer” e nosso desejo construído em nome do poder. Vi também Flávio Gikovate na TV cultura comentando sobre isso, dando o exemplo de que uns tempos atrás as mulheres iam ao consultório reclamando que odiavam fazer sexo anal, porque era incômodo, porque doía, porque era sujo. Agora depois da enxurrada de filmes pornôs mostrando o ato de modo tão natural e por ter virado fashion, parece que nenhuma delas sente dor mais! Resumindo: as pessoas não se interessam em descobrir a outra quando vão pra cama, em deixar o sexo rolar; elas querem colocar em prática o que viram nos filmes pornôs (principalmente os homens por uma vontade “construída” em perpetuar um tal poder perdido). Ops! Desculpa! Isso aqui está ficando muito profundo e eu prometi que não ia fazer isso. Foi só uma digressão e digressão é coisa que abre ao profundo... Não posso! Tenho de voltar à simplicidade do mundo cão, pop e pulp fiction, ao coletivo!
Ver Madonna atuando me motiva, de verdade. Desde quando era adolescente e ela começava na carreira. O visual dela era tudo para nós garotas reprimidas, principalmente as iguais a ela, eu, educadas em colégio de freiras (ok, calma, não vou entrar aqui na discussão da repressão sexual católica nas mentes de inúmeras gerações e nem da imagem sensual de Cristo pregado na cruz...). A audácia em fazer o que quer e exercer o direito em ser contraditória, mas corajosa, realmente me faz admirá-la. A música de Madonna me faz levantar e dançar, o que ela diz em suas letras muitas vezes me faz dizer “é isso! É isso!” em segredo, só pra mim. E vê-la em seus modelitos, corpo sarado e recauchutado me faz entusiasta por pensar que eu também posso fazer o mesmo. Até me questionei, esquecendo o passado, (só um pouquinho, bem superficialmente) se essa motivação que a Madonna me causa não seria porque eu mesma estou já sentindo o peso social da minha idade (e da gravidade) e ao vê-la tão bem aos 50 anos, envelhecendo sem nenhum pudor e muito botox na nossa frente não seria uma grande desculpa. Mas vi que não porque cada vez que olho para trás e vejo toda a trajetória dela vejo a minha também e percebo que ela sempre me motivou de um modo ou de outro, mesmo que sutilmente. E vejo que ela fez isso com muitas mulheres do meu tempo e com as minhas amigas bibas, é claro. Uhu!
Ela nunca foi tão bonita, mas aprendeu a se valorizar. Ela nunca foi uma grande cantora, mas aprendeu a cantar; desafina ao vivo um monte, mas tem muito cantor de rock e até de ópera que dá uns escorregões vai! Os shows, os vídeos clips são impecáveis. Como diria um grande amigo meu “ela juntou um papel laminado, umas cartolinas, botou no palco e acreditou nela! E vamô lá!”.
E ela vem crescendo em termos de som diferente e letras fantásticas! Ela escreve coisas, ok pops, mas muito legais e que dizem muito ao mundo feminino. Adoro principalmente quando ela fala da dor de ser uma mulher poderosa e contraditoriamente machista ao aceitar um homem que a maltrata ou que é simplesmente um bundão. Aliás, uma coisa que NÓS mulheres poderosas (psicólogos podem explicar isso melhor do que eu) temos a mania de fazer: aceitar homens porcarias, talvez para justificar o mundo machista em que vivemos e nos colocando para baixo.
Veja:
Take a bow mostra aquele nosso momento de descoberta do amor falso ou acabado
You deserve an award for the role that you play
(…)
You took my love for granted, why
I’ve always been in love with you
E quando a gente dá aquele famoso pé na bunda do bofe, ele volta dizendo “Sorry” (de qualquer nacionalidade, de qualquer canto do mundo, parece sempre a mesma merda. Nossa! Como isso é verdade!), Madonna nos representa e diz:
You’re not half the man you think you are
(…)
You stayed because I made it so conviniente
É isso mesmo, amiga! Nós é que permitimos! E depois a gente reclama. Já que temos que fazer todo o trabalho... Cala boca e tira as calças! Ahahahahah! (risada de bruxa!). Ai minha Lilith!
E depois ainda dá uma chance para os carinhas usarem seus neurônios e pergunta(mos) What it feels like for a girl:
Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
cause its ok to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
cause you think that being a girl is degrading
But secretly you’d love to know what it’s like
Wouldn’t you
What it feels like for a girl
Madonna se expõe, ela tenta fazer algo diferente, ela experimenta, ela não olha para trás, ela erra, ela se contradiz e acho que é por isso que me sinto tão identificada com ela. E se for por ela, Madonna, entre outras mulheres expoentes no mundo capitalista que eu me inspirei e construí um modelo de mulher que é dona do seu nariz, ok, aqui está meu agradecimento e sim reverência.
A gente paga um preço alto por ser independente, por viver a nossa sexualidade como queremos mesmo construída por Erotica. De nos expor como e quando queremos, sendo chamadas de loucas e metendo medo nos homens, nos apaixonando loucamente por eles, sendo traída por eles (novamente) e desabafando dizendo:
She's not me
She doesn't have my name
She'll never have what I have
It won't be the same
It won't be the same
She is licking her lips
And she's batting her eyes
She's not me
She's got legs up to there
And such beautiful hair
She's not me
Oh, devoted for life
Make a beautiful wife
She's not me
If you spend some more time
I guarantee you will find
She's not me
E se por tudo isso (sexualidade, paixão, ambição e sei lá mais o que) você, mundo machista, me condena... Eu não vou pedir desculpas, tá?
Did I say something wrong?
Oops, I didn’t know I couldn’t talk about sex
[I must’ve been crazy]
Did I stay too long?
Oops, I didn’t know I couldn’t speak my mind
[what was I thinking]
(…)
And I’m not sorry, it’s human nature
Sinto-me menos uma mulher-palmito por tudo isso que aprendi com a rainha do pop. E por isso eu coloquei essa foto dela num trono de perna aberta mesmo! Porque é lá a que pertencemos: eu e Madonna!
P.S.: Fui prolixa! I’m not sorry!